R - EAD Atrativos Turísticos Iranduba: Belezas Naturais e Agricultura
Artigos

INCENDIÁRIOS OU REVOLUCIONÁRIOS?

Atualizado em 24/10/12
Por J Ray Lima

O texto a seguir, de minha autoria, baseado em fatos reais, não tem a intenção de denegrir a imagem de quem que seja, mesmo porque muitas das pessoas citadas por mim nesta narrativa fazem ou fizeram parte do meu convívio, com elas tive ou tenho um excelente relacionamento. Todavia, história é para ser registrada; portanto, esta é a minha contribuição para você que é mais jovem do que eu ou que chegou a Iranduba bem depois que tais fatos ocorreram ou, ainda, você que, de um modo geral, tem interesse em saber mais sobre a o nosso município.

Durante a campanha eleitoral deste ano, que culminou com a eleição do candidato do PTB, Xinaik Medeiros, para Prefeito de Iranduba, adversários políticos dele, vez por outra, fizeram referência a um episódio ocorrido há 26 anos, envolvendo a família Medeiros. Trata-se de um levante popular que resultou na queima de casas, carros, um estabelecimento comercial (“Caverninha Lanche”) e outros pertences do então Prefeito Nelson Maranhão e familiares, além de um parque de diversões que ficava localizado na Av. Juruá, em frente ao local onde está hoje o Ginásio Josué Araújo de Almeida.
O fato deu-se na tarde de 19 de abril de 1986, um sábado, e foi amplamente registrado pelos jornais da época.

A DITADURA DE MARANHÃO

Iranduba vivia dias de verdadeira ditadura administrativa: quem falava mal do Prefeito, se opunha ao autoritarismo com que ele governava ou simplesmente ousava opinar sobre tais atitudes era perseguido pelo chefe do Executivo local, que mandava prender, demitir (se fosse funcionário municipal) ou transferir (se fosse servidor estadual), entre outras formas de retaliação.
E não havia a quem recorrer, pois no município não tinha Juiz nem Promotor; o Delegado, Sub-Tenente Filadelfo da Cruz Maciel, obedecia às ordens arbitrárias do Prefeito.
Certa vez uma comerciante da cidade foi pedir a interferência do Prefeito Nelson Maranhão para soltar um irmão dela que havia sido preso por desordem. O Prefeito mandou um bilhete para Filadelfo, ordenando a soltura; o militar, no entanto, argumentou que precisava aguardar um pouco enquanto o detento saía do estado de embriaguez para dar-lhe uns conselhos (algo do tipo: “não faça mais isso”). A negociante voltou a Maranhão e disse: “Seu Nelson, eu fui lá com o Delegado, mas ele disse que não vai soltar o ... agora não!”. E o Prefeito retrucou: “Diz pro Filadelfo que quando eu mandar soltar é pra soltar e quando eu mandar prender é pra prender!”. E enviou um outro bilhete ao titular da Delegacia de Iranduba, que, por sua vez, obedeceu ao mandatário ditador.
Naquela época ainda não havia água encanada na cidade; o abastecimento do precioso líquido era feito por carros-pipa. Não foram poucas as vezes em que os motoristas e auxiliares daqueles veículos, chamados então por alguns de “pipeiros”, receberam ordem para não deixar água nas casas de pessoas que fossem opositoras do Prefeito. Só para ilustrar, cito um casal que recebeu essa punição: Seu Nenê Alves e Dona Tereza Maciel, que moravam na Av. Solimões, onde hoje está sendo erguida a Agência do INSS.
A Prefeitura, que não tinha sede própria, funcionava nas dependências da Escola Isaias Vasconcelos; de igual modo, a Câmara de Vereadores, onde a ordem era subserviência total ao Poder Executivo. Nada de críticas; só elogios. Apenas três Vereadores se atreviam a fazer oposição ao Prefeito: Rubens Pimentel (“Rubinho”), João Alves Batista (já falecido) e Almir Medeiros, tio do atual Prefeito eleito, Xinaik Medeiros.
João Alves, que certa vez denunciou desvio de merenda na Escola Isaias Vasconcelos, foi intimidado pelo Secretário de Finanças, Jânio Gandra, e, dias mais tarde, execrado publicamente através de uma nota divulgada em jornais de grande circulação de Manaus, de autoria da própria bancada situacionista na Câmara, fazendo referência à orientação sexual do parlamentar. O mesmo texto foi lido por mim repetidas vezes, por determinação de Nelson Maranhão, na Voz do Iranduba, veículo de comunicação em que eu trabalhava como locutor, contratado pela Prefeitura. Se fosse nos dias atuais, seria um prato cheio para os operadores do direito ingressarem com ações na Justiça, em nome de João Alves, contra todos os Vereadores que assinaram a aludida nota difamatória; e, certamente, eles – e eu também – seríamos condenados a pagar indenizações milionárias ao Edil.
Naquele tempo, se falar mal do Prefeito por trás já dava problema para qualquer adversário, imagine criticá- lo face a face! O ex- Vereador Almir Medeiros é testemunha: certa vez ousou fazê-lo e quase apanha de Nelson Maranhão dentro do Plenário da Casa Legislativa. Enquanto o Vereador discursava, relatando desmandos administrativos que se registravam naquele período, Maranhão avançou na direção dele e só não foram às vias de fato porque o pai do Prefeito, à época Assessor da Câmara Municipal, Tenente Álvaro Maranhão, interveio para acabar com a briga. Ainda me lembro como se fosse ontem do que gritou o irmão do Prefeito, Nilson Maranhão, que era Secretário de Transportes da Prefeitura, no meio do Plenário: “Almir, cachorro!”
Minutos depois, coube ao velho desportista Álvaro Maranhão, também, a missão de aplacar a fúria dos “Medeiros” e amigos que trabalhavam com eles na várzea, os quais chegaram em grupo sobre um caminhão da família, dispostos a “dar uma lição” no Prefeito ditador.
Esse episódio, creio, foi o primeiro de uma série de conflitos protagonizados pelas famílias Medeiros e Maranhão, históricas adversárias políticas, até chegar ao dia fatídico da “queimação”.
Na mesma época, quando era publicada alguma matéria em jornais de Manaus contendo qualquer denúncia contra Nelson Maranhão, ele mandava comprar todos os exemplares que eram trazidos para Iranduba, impedindo, assim, que a população tivesse acesso a tais informações.
O então suplente de Vereador Edmilson Borges, que era conhecido também como “Edmilson Bate Palma”, foi certa vez à televisão denunciar arbitrariedades do gestor municipal e o estado precário em que a cidade se encontrava. Salvo o engano, foi no extinto programa Repórter da Cidade, apresentado pelo ex- Deputado Estadual Nonato Oliveira. Quando “Bate Palma” retornou a Iranduba, foi parar no xadrez.
Quem passou pela mesma repressão foi Fausé de Souza, figura conhecidíssima na época aqui em Iranduba. Ele vendia jornais e, vez por outra, publicava alguma denúncia contra o Prefeito. Foi punido com prisão por mais de uma vez e ainda foi obrigado a andar pela cidade vestindo uma camisa com a inscrição: “Tô com Maranhão e não abro”. Quem produziu as letras na dita camisa foi o Professor Cláudio José da Silva, o “Cláudio Sujo”.
Outro atentado à liberdade de expressão ocorrido em Iranduba nos anos 80: havia um político chamado Djalma Passos, que fazia um comentário todas as segundas-feiras dentro do Jornal da Manhã da Rádio Difusora, o mesmo noticioso do qual, com muita honra, hoje sou correspondente. A Voz do Iranduba retransmitia diariamente o programa, das 6 às 7 horas da manhã, até o dia em que Djalma Passos fez uma rápida referência ao Prefeito do município, dizendo, entre outras coisas, que Nelson Maranhão estava desacreditado pela população local. E logo veio a ordem: “a partir de amanhã não retransmite mais o jornal da Difusora!”
O ex- Deputado Estadual Samuel Peixoto, que chegou a denunciar na Assembleia Legislativa e na imprensa as irregularidades que ocorriam em Iranduba, também foi alvo de ameaças. Lembro-me de uma reunião na Câmara de Vereadores com a presença de Peixoto, que posicionou um fusca de sua propriedade, com dois alto-falantes em cima, do lado de fora da sede do Legislativo para permitir que o público ouvisse os pronunciamentos. E ouvi de Nilson a seguinte frase: “se falar mal do meu irmão (em referência a Nelson Maranhão), eu corto o cabo do microfone de terçado!”
E esse histórico de autoritarismo e conflitos na primeira administração de Iranduba (1983 a 1988) é muito amplo! Rende um filme, novela ou algo do tipo. Mas não posso deixar de fora uma confusão que ocorreu dentro do estúdio da TV Amazonas, quando esta funcionava na Av. Carvalho Leal, esquina com Av. Tefé, na Cachoeirinha. No ar, ao vivo, estava a apresentadora Marlene Santana, que também foi Deputada Estadual. Assessores e opositores do Prefeito Nelson Maranhão ali presentes se desentenderam, saíram no tapa e findaram por tirar a emissora do ar naquele momento. O empresário José Maria Muniz, que viria a ser Prefeito três anos mais tarde, estava apenas dando uma carona para os oposicionistas, mas não tinha nada a ver com a querela; todavia, não gostou de ouvir um desaforo da parte de Raimundo Oliveira Pereira, um dos Secretários da Prefeitura de Iranduba, e “sentou-lhe a mão”. Rendeu até Polícia de Choque no caso. No dia seguinte o episódio foi destaque nos principais jornais de Manaus. Coincidência ou não, Muniz estreava na política em 1986 como candidato a Deputado Estadual; sem sucesso, candidatou-se a Prefeito em 1988, vencendo o Advogado José Neto Pontes, apoiado por Nelson Maranhão.

A “QUEIMAÇÃO”

Era sábado, 19 de abril de 1986. O Prefeito Nelson Maranhão, a então Primeira-Dama, Alzira Barros, hoje Vereadora e Suplente de Senadora; as filhas Cristiane Grey, recém-eleita Vereadora, e Cristina, ambas crianças naquela época, além de assessores da Prefeitura, foram para a zona rural do município.
Nilson Maranhão, Secretário de Transportes e irmão do Prefeito, ficou na cidade tomando todas, como sempre o fazia. Petulante, era do tipo que batia no peito e dizia: “eu sou irmão do Prefeito, faço e aconteço e não pega nada pra mim”. Lá pelas tantas da tarde ele foi ao bar da “Lica” (que vende peixe), na antiga feira, próximo à descida da várzea. Lá, encontrou-se com os irmãos Zeca e Mário Medeiros... Para saber ao certo quem mexeu com quem é só perguntar à “Lica”, que está aí “vivinha da silva” para contar a história. O certo é que Zeca e Mário sofreram uma tentativa de homicídio por parte de Nilson, que disparou contra ambos com um revólver.
Preso, em seguida, pelo Delegado Filadelfo Maciel, o mesmo que obedecia a todas as ordens do Prefeito, fugiu por trás da Delegacia com medo de ser linchado.
E seria mesmo, pois os momentos seguintes registraram uma multidão enfurecida jogando gasolina e tocando fogo em tudo quanto era da família Maranhão: a casa do Prefeito e de outros familiares, o carro dele e o do irmão Nilson, pivô da confusão; a Voz do Iranduba, o “Caverninha Lanche”, também pertencente a Nilson, localizado dentro do parquinho de diversões, que também foi destruído pelos manifestantes.
O levante popular, que contou com ampla participação da família Medeiros, também reuniu dezenas de outros manifestantes, que, embora agindo de forma delituosa, exteriorizaram a revolta da sociedade irandubense, que não aguentava mais ser tratada com autoritarismo, arrogância e descaso.
Após esses acontecimentos, Iranduba ficou um ano sob intervenção estadual. O interventor nomeado pelo então Governador Gilberto Mestrinho foi o Tenente- Coronel Antônio Ferreira Lima, cuja gestão foi imensamente produtiva. E de lá para cá nunca mais houve quem se atrevesse a agir com mão de ferro para oprimir o povo.

_________________
Fonte: Grupo Portal de IrandubaJ. Ray no Facebook


 

Outros artigos:
 
Copyright © 2019 - Todos os direitos reservados - Desenvolvido e mantido por Ewsite.NET | Administração