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Sociedade Manifestação dos sem água

Atualizado em 24/07/13
Por Wilson Nogueira

Mais de 80% dos moradores do município de Iranduba, banhado pelo Amazonas e pelo Negro, dois dos maiores rios do mundo, não possuem água encanada. Na semana passada, parte dos “sem água” foi às ruas cobrar solução da prefeitura do município e do governo do Estado. O problema, com maior ou menor intensidade, afeta todos os 62 municípios do Amazonas, inclusive Manaus, mas Iranduba serve de exemplo do descaso do poder público com a qualidade de vida da população do interior.

É no mínimo paradoxal que o Estado e a União tenham gasto mais de R$ 1 bilhão para interligar Manaus a Iranduba, Manacapuru e Novo Airão, através de ponte sobre o rio Negro, sem antes realizar investimentos em saneamento básico nesses municípios. A ponte, cujo preço está sob a suspeita de superfaturamento, facilitou a vida de muita gente, mas não pode ser usada para esconder o desprezo dos governantes pela população pobre.

É nesse município sem água potável que o governo construirá a sede da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), ‘cidade universitária’, no entorno da qual surgirão condomínios de luxo. Todos, certamente, bem abastecidos de água potável, porque, no jogo das classes dominantes, tudo se resolve com celeridade, ainda que pareçam ser movidas por interesses conflitantes.

O que se faz em Iranduba já se fez em Manaus e em outras cidades brasileiras dominadas pela politicalha que prioriza ‘obras geradoras votos’ em detrimento das que valorizam a vida. Ouve-se sempre dos políticos carreiristas a máxima de que obra escondida debaixo da terra não dá voto. Logo, faltam rede de esgoto e água encanada pelo Brasil e sobram doenças endêmicas em áreas insalubres.

Ponte, cidade universitária e empreendimentos imobiliários fazem parte do mesmo pacote que promete levar progresso ao “outro lado” do rio, agora parte da região metropolitana. Quem e quantos serão beneficiados por esses investimentos? Não seria a grande maioria da população, os mais de 80% que sequer têm água boa para beber. Assim, os condomínios de luxo, restaurantes e hotéis para turistas tendem a se tornar ilhotas de ostentação rodeadas de vizinhos vivendo em condições precárias.

Resta torcer para que a universidade funcione a contento e seja parceira dos seus anfitriões nas lutas por melhores condições de vida. O banco escolar e, principalmente o do ensino superior, é sempre esperança renovada de que, por meio da formação de massa crítica, o mundo possa melhorar. Penso que professores e estudantes universitários não se negarão a engrossar as passeatas dos moradores de Iranduba por água potável. Mesmo que a contragosto dos governantes, a UEA, paga com o dinheiro do contribuinte, não pode e não deve ser apenas parte de um pacote imobiliário.

Disse que Iranduba é um exemplo das várias situações de descaso com os serviços públicos essenciais no Amazonas, entre eles o do abastecimento de água potável. Não somente nas regiões urbanas, mas, igualmente, nas rurais, onde a maioria dos moradores se abastece de água tirada diretamente das cacimbas, igarapés ou rios. Poucas comunidades possuem serviço de poço artesiano funcionando a contento.

Na vazante, torna-se comum os ribeirinhos colherem água da chuva ou das lagoas contaminadas por peixes e outros animais apodrecidos. O resultado dessa forçada prática são os surtos de diarreias e verminoses que causam mortes, sequelas e congestionam os precários serviços de saúde do interior.

São casos que denunciam que a ponte, ao menos até agora, não levou desenvolvimento humano a lugares historicamente abandonados pelo poder público. Ao contrário disso, favoreceu à especulação imobiliária até na área rural e, assim, empurrou antigos agricultores familiares para as cidades. A manifestação de Iranduba por água para beber pode ser o sinal de que a área metropolitana de Manaus quer muito mais que o status pomposo desse termo. Não deixa de ser um incentivo, também, aos sem água de Manaus.

Fonte: D24am


 

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