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Associação no AM luta por direitos da mulher do interior:

Atualizada em 22/03/2017


Associação de Mulheres Jasmim, do Iranduba, foi fundada em 2011 por Cacilda Viana (Foto: Jamile Alves/ G1 Amazonas)

Viver livre é um direito. Faz parte da luta que muitas mulheres travam cotidianamente para superar as desigualdades de gênero. A batalha para vencer "leões" socialmente construídos é ainda mais dolorosa quando se fala em violência doméstica. Munidas de força e sororidade de sobra, uma Associação de Mulheres no Amazonas encoraja vítimas de agressão na conquista da independência, autoestima e da vida sem medos.

A Associação de Mulheres Jasmim é uma entidade sem fins lucrativos, criada por um grupo de mulheres com o objetivo de combater a violência de gênero de forma preventiva e educativa, além de oferecer cursos que promovam a integração de mulheres no mercado de trabalho. A sede da associação está localizada no Distrito de Cacau Pirera, no município de Iranduba, a 27 quilômetros de Manaus.

O ponto de partida da organização se deu em 2011, após Cacilda Viana dizer um basta às agressões do marido. "Ele começou a me bater depois do primeiro filho. Ele era ciumento, não deixava eu sair de casa nem para ir para igreja, não podia usar maquiagem ou certas roupas. Depois de alguns anos, além das agressões, ele começou a ser infiel e eu resolvi tomar uma atitude: Me separar", disse hoje, com 36 anos.

A separação deu voz à ela, que resolveu, também, dar voz a centenas de outras mulheres. O trabalho para isso foi de "formiguinha" e contou, no início, com a ajuda de seis amigas - três delas também vítimas de violência doméstica.

"Na época nosso foco era apenas dar apoio psicológico, fazer a denúncia, acompanhar a mulher na delegacia. Muitas têm medo porque não encontram apoio da família, de uma amiga, de uma outra mulher, e não tomam coragem para fazer a denúncia porque têm medo de serem ameaçadas. A gente queria quebrar isso", contou Cida, como é chamada no grupo.

Com o tempo, as seis mulheres viraram 150. Assim como o número de membros, cresceram também as competências da instituição. Além do apoio social e jurídico a mulheres vítimas de violência, a Associação Jasmim passou a oferecer cursos profissionalizantes para empoderar a mulher do interior.

"Não sei por que me batiam"

Muitas carregam histórias difíceis, como a da artesã, Lourismar de Moraes, de 53 anos. Ela nunca conheceu os pais biológicos. Aos 8 anos perdeu a mãe de criação. Aos 12 anos foi estuprada e teve a primeira filha. Na década seguinte, deu à luz mais duas meninas, também frutos de relações forçadas. "Fui criada na mão de um e de outro. Eu não sei por que me batiam, eu fazia tudo o que me pediam", contou.

Lourismar nasceu no município de Pedreiras, no interior do Maranhão, mas se mudou para Imperatriz quando ainda era um bebê. Após o falecimento da mãe adotiva, a menina com apenas 8 anos, morou em muitas casas, onde prestava serviço de empregada doméstica.

"Todo mundo dormia cedo e eu tarde, porque tinha que deixar tudo limpo e arrumado. Era vítima de estupro, não tem ´nem as contas´. Fui estuprada várias vezes porque não tinha justiça para mim. Eu não tinha ninguém", lamentou.

Do fruto das incontáveis violências, nasceram suas três meninas. Uma em Belém, no estado do Pará, e as outras duas em Imperatriz, no Maranhão. Cada uma de um pai diferente. "Eu sofro muito porque elas cresceram longe de mim, me tomaram. Eu não dei nenhuma filha. Tomaram porque são lindas", emocionou-se.


"Nove anos de sofrimento"

Kelen Cristina Ferreira de Oliveira tem 48 anos. Aos 14 virou esposa de um jovem de 20. Da casa dos pais, a adolescente passou a morar em uma casa humilde em Tapauá, município a 449 km da capital. Com a independência do casal, vieram os cinco filhos e também as agressões.

"Eu era uma criança e foi uma vida muito difícil. As brigas começavam sempre que eu saía de casa. Eu não podia colocar a cara na janela que ele me batia. Meu pai soube por acaso que ele estava me judiando e foi lá comigo. Quando ele chegou na minha casa eu neguei tudo. Ele me ameaçava e eu tinha medo que ele matasse o meu pai", lembrou.

Segundo Kelen, a imaturidade calou sua voz. A falta de conhecimento a fez naturalizar as ações do marido, que também a proibia de visitar os pais. "Meus pais se mudaram para Manaus e eu fiquei sozinha com ele em Tapauá. Eu chorava para poder ver meus pais. Até que eu insisti muito e ele viajou comigo. Eu tinha em mente que, quando chegasse aqui, eu daria um basta e iria me separar", recordou.

Na capital, Kelen chegou a morar com o ex-esposo em uma invasão no bairro Compensa 3, na Zona Oeste. Conseguiu um emprego como auxiliar de serviços gerais em um shopping da cidade, que ainda estava em construção. Foi após um dia no trabalho novo que ela decidiu se separar.

"Um dia eu cheguei tarde porque precisei fazer extra. Ele estava na parada de ônibus me esperando. Ele foi brigando comigo até em casa. Quando cheguei lá, meu bebê acordou e fui dar de mamar. Eu fui me justificar, ele mandou eu calar a boca e me socou no rosto. Falei ´a partir de hoje você não vai me bater nunca mais´", disse.

O casamento teve fim, mas as agressões, não. Kelen deixou os filhos sob tutela da mãe e dormia em locais diferentes para fugir da perseguição do ex-companheiro. Mais longe das crianças, a ex-cunhada de Kelen tirou os filhos da casa onde estavam e as doou, segundo a costureira. "Ela pegou meus filhos e deu. Três eu consegui resgatar, mas dois, de 2 e 5 anos, eu nunca achei. Até hoje eu sofro com isso. É minha maior dor", contou emocionada.

O ex-marido de Kelen chegou a ser preso por uma das agressões. A punição por nove anos de agressão à companheira foi 24 horas na prisão. "Hoje ele está mais tranquilo, tem outra família. De vez em quando ele liga, pergunta pelos meninos. Eu tinha rancor de tanto sofrimento que passei, mas eu fui orando e hoje não tenho mais. Fico mais triste quando vejo uma mulher sofrendo e não tem coragem de reagir", completou.

"Pétalas de Jasmim"

Os anos de sofrimento fizeram Lourismar desenvolver depressão, doença hoje controlada depois que ela conheceu a associação. Foi na confecção de bonecas de pano que ela se encontrou. O modelo de "bebezinho com chupeta" ganhou o Brasil. "Nós levamos para vender na feira de artesanato. E o bebê foi para Brasília, São Paulo", orgulha-se.

Logo Lourismar se destacou das outras alunas da turma, por fazer as bonecas rápido, sem nunca esquecer-se do acabamento. Com o dinheiro da venda das peças, ela arca integralmente com as despesas da casa. Foi assim que a parteira, agricultora e doméstica, tornou-se também artesã.

A entidade também deu desfecho diferente para a história de Kelen. Junto a Cida Viana, ela ajudou a criar a instituição Jasmim, para prestar apoio a outras mulheres vítimas de violência doméstica.

"Começamos do nada. Andávamos a pé porque a gente não tinha dinheiro para ônibus, a gente dividia até a marmita de comida. Eu me via no sofrimento das mulheres que a gente ajudava, no sofrimento que eu já tinha passado. Eu conversava com elas, elas chegavam chorando e saiam sorrindo. Hoje elas estão bem", disse.

Hoje, além de encorajar mulheres a denunciar situações de violência, Kelen Cristina ministra aulas de corte e costura na associação. "Digo para todas que antes era mais difícil para gente, existia mais medo, porque não existia facilidade para denunciar. Hoje eu falo para as que sofreram, igual eu sofri, que depois da minha separação eu consegui ter uma vida, um trabalho, busquei conhecimento. Não fiquem no sofrimento", aconselhou.

A proposta de tornar mulheres do interior autosuficientes chamou a atenção de Marinete Martins do Nascimento, de 45 anos. Ela não é vítima de violência doméstica, mas também foi amparada pela associação, onde descobriu nas oficinas uma nova paixão: ensinar.

Em Iranduba ela conheceu a Cida, e as duas tornaram-se amigas. Marinete participou de vários cursos dentro e fora da associação. Mas, foram os de confecção de sandálias e de ´pet aplique´ que mais chamaram sua atenção e de "olheiros". De aluna, "Nete" foi chamada para ministrar as aulas para outras companheiras.

"Tanto a gente aprende como ensina. Foi muito bom poder dar aula, a pessoa se sente útil. E foi com os conhecimentos que obtive daqui (da associação). As minhas filhas sempre me questionavam porque eu fazia tanto curso. E eu dizia que um dia ia me servir e eu mostrei para elas que estava certa", afirmou.

A violência doméstica assume muitas formas. Na Associação de Mulheres do Cacau Pirera são as vítimas quem ganham novas características. Segundo a presidente do grupo Cida Viana, todas as mulheres da entidade, vítimas de violência ou não, são pétalas de uma flor de Jasmim. "Elas desabrocham", finalizou.

Fonte: G1AM







 

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